Ela dormia oito horas e acordava exausta todo dia. Só depois de um exame de sono descobriu que parava de respirar dezenas de vezes por noite.
Ele se orgulhava de precisar de 'pouco sono'. Não sabia que estava acumulando uma dívida que o corpo cobraria, mais cedo ou mais tarde, com juros.
Havia meses sonhava com a mesma perseguição, sempre sem conseguir gritar por socorro. O sonho não era aleatório — era o corpo tentando processar algo que a mente evitava durante o dia.
Nada de tela antes de dormir, quarto escuro, mesmo horário todo dia. Ela fez tudo certo por meses e a insônia continuou — porque o problema nunca foi o quarto.
Ele dormia as mesmas oito horas de sempre, só que de dia. Mesmo assim, vivia cansado, irritado e com a sensação de nunca estar totalmente desperto nem totalmente descansado.
Ele já usava filtro de luz noturna e achava que tinha resolvido o problema. O celular continuava roubando seu sono — só que por um motivo diferente do que ele imaginava.
De dia ela conseguia distrair a mente. À noite, deitada no escuro, todos os pensamentos que tinha conseguido adiar apareciam de uma vez.
Ela deitava calculando quantas horas restavam até o despertador. Esse cálculo, sozinho, já bastava para garantir outra noite ruim.