Desde criança, ela era quem levava recados entre os pais que não se falavam diretamente. Décadas depois, ainda repetia esse papel em outros relacionamentos, sem perceber o padrão.
Ela dividia casa, cama e rotina com o marido há doze anos. Ainda assim, sentia uma solidão que nenhuma companhia física parecia resolver.
Ele tinha colegas de trabalho, conhecidos, gente para conversa fiada. Amizade de verdade, daquelas que sustentam, parecia ter desaparecido em algum momento depois dos 30.
Cada retorno vinha com esperança renovada de que 'dessa vez seria diferente'. Sem mudança real de nenhum dos dois lados, era sempre a mesma história com outro nome de mês.
Ela interpretava cada explosão de ciúme como prova de quanto era amada. Levou anos para perceber que aquilo tinha outro nome, e outra origem.
A discussão era sobre louça suja. Não era sobre louça suja. Era sobre a mesma coisa que sempre é: quem se sente visto, e quem não.
Anos de brigas sobre 'falta de carinho' que na verdade eram sobre duas pessoas falando línguas emocionais diferentes, sem saber que existia tradução.
As pessoas perguntavam 'mas o que ele fez de errado?'. A resposta — nada — parecia insuficiente para justificar toda a tristeza que ela sentia.
Ela buscava proximidade e se apaixonava, repetidamente, por quem tinha mais dificuldade de oferecê-la. Não era azar. Era um padrão com nome e explicação.
"Vai passar", "podia ser pior" — às vezes queremos ajudar e machucamos. Veja o que realmente funciona.