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Crescer diferente: conviver com a Síndrome de Tourette na escola e na vida adulta

AutorEquipe Não É Só Você
Publicado12 de julho de 2026
Tempo de Leitura4 min de leitura

Tem uma versão da história da Síndrome de Tourette que quase nunca é contada: a de quem cresce com ela. Não é só sobre os tiques em si — é sobre aprender, desde muito cedo, a existir num corpo que chama atenção sem pedir permissão, num mundo que nem sempre sabe o que fazer com isso.

A infância: entre o diagnóstico e o julgamento

Os primeiros tiques costumam aparecer entre os 5 e os 10 anos, e muitas vezes o diagnóstico demora — os sintomas oscilam, pioram com estresse e melhoram com calma, o que faz pais e professores, sem informação, interpretarem como manha ou falta de limite. É comum a criança ser repreendida justamente pelo comportamento que ela menos consegue controlar, o que gera uma mistura confusa de vergonha e impotência: "eu não estou fazendo de propósito, mas todo mundo age como se eu estivesse".

Na escola, colegas notam, perguntam, às vezes imitam. Isso pode ser feito com curiosidade inocente ou com crueldade — e para uma criança, a diferença nem sempre importa: o resultado emocional, o sentimento de ser "esquisito" na frente de todo mundo, é parecido. É por isso que apoio escolar informado faz uma diferença enorme: professores que entendem a condição podem intervir antes que vire bullying, e explicar a turma de um jeito que gera empatia em vez de estranhamento.

A adolescência: quando o corpo já dói duas vezes

A adolescência amplifica tudo. É a fase em que se quer pertencer, ser igual, não se destacar — exatamente o oposto do que a Tourette impõe. Muitos adolescentes com Tourette desenvolvem estratégias de "mascaramento": suprimem os tiques em público, com um esforço mental imenso, só para deixá-los explodir, exaustos, assim que chegam em casa e finalmente podem relaxar a guarda. Esse esforço constante é invisível pra quem está de fora, mas profundamente cansativo pra quem vive.

Não é incomum que ansiedade e depressão apareçam nessa fase, não como parte da Tourette em si, mas como consequência de anos sendo tratado como diferente demais, ou de conter o corpo o tempo todo em nome de "passar despercebido".

A vida adulta: aprender a se explicar sem se desculpar

Adultos com Tourette costumam desenvolver algo que poderíamos chamar de fluência emocional sobre a própria condição: aprendem a explicar rapidamente o que é, de um jeito que não soa como desculpa, apenas informação. "Eu tenho Tourette, às vezes faço uns movimentos, não é nada, pode continuar" — dito com uma naturalidade que levou anos pra ser construída.

Isso não significa que o peso desapareceu. Ambientes de trabalho, primeiros encontros, situações sociais novas ainda trazem a ansiedade extra de "como as pessoas vão reagir dessa vez". Mas há também, com o tempo, um fortalecimento: quem passou a vida sendo observado aprende, muitas vezes, a se importar menos com quem julga sem entender.

O que realmente ajuda em cada fase

Em qualquer idade, o que mais ajuda é o mesmo: informação (pra quem tem Tourette e pra quem convive com ela), apoio terapêutico quando a ansiedade social pesa demais, e ambientes — escolares, familiares, profissionais — que tratem os tiques como o que são: uma característica neurológica, não um comportamento a ser corrigido pela força.

Uma leitura pra apoiar essa caminhada

Indicamos novamente Tiques, Cacoetes, Síndrome de Tourette: Um Manual para Pacientes, seus Familiares, Educadores e Profissionais de Saúde, da Dra. Ana Gabriela Hounie — especialmente valioso pra pais e educadores que querem entender como apoiar uma criança ou adolescente com Tourette em cada fase da vida.

Crescer diferente é difícil. Crescer diferente sem apoio é ainda mais. Você, ou quem você ama, merece o segundo tipo de infância — o apoiado.

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