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A voz que só o Daniel ouvia

AutorEquipe Não É Só Você
Publicado02 de setembro de 2026
Tempo de Leitura4 min de leitura

A história abaixo é ficcional. Daniel não existe — foi montado a partir de relatos que se repetem tanto que ficaram parecidos entre si. O reconhecimento é o ponto; a saída dele não é receita para ninguém.


Daniel tinha vinte e dois anos quando a voz apareceu pela primeira vez. Não era assustadora no início — mais um comentário ocasional, quase como um pensamento em voz alta que não era dele. Com os meses, ficou mais frequente, mais crítica, mais presente.

Ele não contou a ninguém. A imagem que tinha de esquizofrenia vinha de filme: alguém violento, perigoso, internado para sempre em algum lugar distante da própria vida. Contar parecia equivalente a assinar essa sentença.

Os dois anos de silêncio

Daniel desenvolveu estratégias para esconder. Usava fone de ouvido em público, mesmo sem música, para que ninguém estranhasse quando respondia mentalmente à voz. Evitava silêncio, porque era quando ela ficava mais alta. Parou de sair com amigos, alegando cansaço. A família notou o isolamento e atribuiu a estresse do trabalho.

O que mais pesava, segundo ele descreve depois, não era exatamente a voz — era a solidão de carregar aquilo sozinho, com medo constante de ser descoberto e julgado por algo que não escolheu.

O dia em que não deu mais para esconder

Uma crise mais intensa aconteceu no trabalho — Daniel ficou agitado, confuso, respondendo em voz alta a algo que ninguém mais ouvia. Um colega chamou ajuda. Ele foi levado a atendimento de emergência, assustado e, segundo relata, aliviado ao mesmo tempo: finalmente alguém sabia.

O que veio depois

O diagnóstico chegou com um psiquiatra que passou tempo explicando o que estava acontecendo, sem o tom de sentença que Daniel temia. Começou tratamento, e nas primeiras semanas foi difícil — os primeiros ajustes de medicação vieram com efeitos colaterais desconfortáveis, que ele quase desistiu de tolerar.

A voz não desapareceu por completo, mas diminuiu de intensidade e de frequência. Daniel aprendeu, com apoio de psicoterapia, a reconhecê-la como sintoma, sem que isso significasse acreditar em tudo que ela dizia — uma distinção que levou tempo para se firmar.

Onde ele está agora

Três anos depois do diagnóstico, Daniel trabalha meio período, retomou contato com os amigos que tinha afastado, e conta a história para quem pergunta, sem o peso de vergonha que carregava antes. Ele diz uma frase que resume o que gostaria de ter sabido antes: "O silêncio dos dois anos doeu mais do que qualquer coisa que aconteceu depois que eu falei."

Por que essa história está aqui

Se você ouve algo que outros não ouvem, ou se alguém próximo a você já mencionou isso, vale saber que existe caminho, existe tratamento, e o silêncio raramente é o que protege — geralmente é o que mais pesa. Contar para um profissional de confiança não é abrir mão da própria vida. Para muita gente, incluindo quem inspira esta história, é o começo de recuperar o controle sobre ela.

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Para ir além

Se quiser se aprofundar no tema, Esquizofrenia — Guia para Famílias é uma leitura de referência bem avaliada por quem já leu.


Este texto é informativo e não substitui avaliação de profissional de saúde. Se você está em sofrimento intenso, o CVV atende de graça, 24h, no 188 e em cvv.org.br. Em risco imediato, procure o SAMU 192 ou o pronto-socorro mais próximo.

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